Perguntei para o meu filho de 13 anos quais as lembranças que ele tem da infância para testar o que andei construindo de imagens afetivas e ele respondeu:

– Me lembro do nosso cruzeiro, quando o vô Buca não sabia se subia para o quarto para dormir ou descia para beber e ficou naquela dúvida na escada do navio, da viagem para o Rio, Aracaju, da viagem para Foz do Iguaçu com o pai, os verões na praia, nossa casa lá fora em Cachoeira quando a gente saía junto a cavalo para juntar as ovelhas, as idas para o Uruguai e quando a tua manicure estava na sala. Porque ela vivia naquela sala contigo. (!)

Fiquei pensativa depois disso. Concluí que viajar com os filhos são os melhores momentos para construir memórias afetivas, quando estamos mais leves e divertidos. Mais propensos a brincar, prestar atenção neles, estar presente de fato. Completamente desligados do trabalho, do celular, do computador. É ali que se constrói um relacionamento regado a sorrisos, abraços, escuta, entrega. Então porque não fazer isso mais vezes em nosso cotidiano? A gente tenta, mas não é o que fica lá registrado na memória com tanta intensidade. Acredito que a saída da rotina colabore com isso.

Eu por exemplo, lembro-me da amarelinha pintada com tinta na lajota do pátio da casa dos meus pais. Lembro-me de ficar chorando atrás da porta abraçada no porta-retrato com a foto da minha mãe quando ela ia fazer faculdade em Cachoeira do Sul. Lembro-me de fazer uma sujeira de giz na garagem dando aula para as bonecas riscando no portão verde escuro. Não tinha muitas viagens para lembrar. Os tempos eram mais difíceis. Puxando pela memória, lembro-me das idas para Rainha do Mar ou Santa Terezinha, algo assim. Lembro-me dos acampamentos onde meu pai deixava tudo brilhando com direito a uma escada no barranco para o rio. Lembro-me da nossa alegria no sítio, plantando florzinhas e pintando tudo que enxergávamos pela frente de amarelo. Lembro-me da rede, do som dos passarinhos, da Gegé pequeninha se atirando na piscina cheia de limos e sapos no inverno e eu me atirando atrás para salvá-la. Lembro-me do cheiro do feijão novo da vó Landinha e como a casa dela era cheia de gente animada com sete filhos e um milhão de netos na hora do chimarrão às 11h30min todas as manhãs. Passava por ali depois da aula só para dar um beijo nos meus “véios” e seguia com minha mãe em direção a nossa casa para almoçar. Hoje a casa está vazia, meu avô se foi, meu tio mais divertido se foi, meu sobrinho se foi, minha vó fica lá sozinha com cuidadoras e assim eu lembro que deveria visitá-la mais vezes.  Mas a vida é tão corrida que acabo me lembrando de que há tantas coisas a serem feitas que a gente esquece o que importa.

Construir memórias afetivas é algo que tem que estar na agenda. Precisamos dar prioridade para isso. A vida só tem sentido quando existem essas memórias. Daqui a pouco meu filho vai morar em outra cidade para estudar. Desde agora me preparo para essa separação. Os filhos são do mundo. Devem voar para onde quiserem e construir suas vidas como lhes convém. Mas as memórias são agora. A base. O registro. Fazer lembrar que na casa da sua mãe existe o maior amor do mundo, um porto seguro se quiser voltar, existe abraço, cafuné e um ombro verdadeiramente amigo. Existe até aquela pessoa metida a psicóloga enfermeira e médica que sabe exatamente a dose de cada remédio para cada situação. Memórias, como você constrói as suas? O que seus filhos lembrarão? O que deixará saudade? Pense nisso e construa agora. O tempo é carrasco e não podemos deixar as memórias para depois, pois correremos um sério risco de deixar um ponto de interrogação no lugar de respostas na hora que perguntarmos para nossos filhos quais as suas lembranças.

Por Renata Miranda

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